Vivíamos uma sociedade quase que exclusivamente rural, com pequenos focos de urbanização. Em um certo período esses valores começam a passar por um processo de inversão, através do conhecido êxodo rural, as urbes começaram a inflar e a receber cada vez mais egresos do campo. Este processo se deu quase que exclusivamente, devido a oferta de vagas de emprego e promessas de aumento da qualidade de vida na cidade, até aí, tudo bem. Essa oferta de emprego ocorria em um dos setores menos remunerados e que menos escolaridade se exigia: a construção civil, e esses egressos, na maioria sem nenhuma escolarização e recebendo salários abaixo do necessário para manterem um padrão de vida que possibilitasse o “ascender” socialmente, constituem comunidades marginalizadas ao sistema de produção, que se baseiam no mutualismo como estratégia de sobrevivencia. Nessas comunidades, passa a vigorar um padrão social e linguístico originário do campo, e, portanto desprestigiado pela elite, que era quem tinha acesso à escolarização e aquisição de uma variante baseada em normas gramaticais do nosso idioma. Essa variante linguística de uso das elites já havia sido adotada pela instituição escola como “norma padrão da língua portuguesa”, já a variante linguística utilizada pelos grupos que, involuntariamente, acabaram marginalizados, simplesmente por adotar uma postura defensiva, continua sendo deixada de lado.
Hoje vemos qual o reflexo deste processo, e, na minha opinião, continua tal qual o princípio da urbanização no Brasil, onde a “norma padrão” ainda é tida como ideal e quem não se adecúa a ela acaba sendo taxado de ignorante ou “burro”.
Já é hora de “a educação” abrir os olhos e perceber que sua clientela não se constitui mais de filhos da elite e sim de filhos do proletário, dos operários, dos agricultores e começar a levar essas realidades em consideração dentro da sala de aula, tratando a “norma culta” como apenas uma variante linguística dentro de inúmeras outras existentes em nosso convívio social, e que a mesma é adecuada em determinadas situações e em outras ela não é exigida. Não digo que não se deva trabalhar a lingua culta, mas que se deixe claro que ela é funcional em determinados casos e que esses casos acabam relacionando-se com mobilidade social.
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